A formação da orquestra

Muitas são as dúvidas quando falamos em composição orquestral. Antes de mais nada, vejamos como se agrupam, em famílias (ou naipes), os instrumentos de uma orquestra:

• cordas (violino, viola, violoncelo, contrabaixo, piano e harpa);
• madeiras (flauta, flautim, oboé, corne inglês, clarineta, clarone, saxofone, fagote, contrafagote);
• metais (trompete, trompa, corneta de pistões, trombone, tuba);
• percussão (tímpanos, bombo, caixa, pratos, carrilhão, entre muitos outros); e
• coro (baixo, barítono, tenor, contralto, mezzosoprano e soprano).

O som que entendemos como “um som de orquestra” é justamente aquele cuja textura é composta pela timbragem de instrumentos destes diversos naipes.

Na hora de escolher os instrumentos que farão parte de uma orquestra, duas coisas têm que ser avaliadas: primeiro, o local onde acontecerá o evento. É importante que a textura de som produzida seja coerente com as proporções da Igreja, decoração, iluminação, etc… A sonoridade produzida por um quarteto de madeira e cordas, por exemplo (teclado, flauta, violino e violoncelo), pode soar super bem em uma capela ou mesmo no espaço bucólico de um sítio, cercado pela natureza. A textura delicada e elegante que um quarteto sem os metais produz é coerente com a estética destes lugares.

 

Mas, se montássemos este mesmo quarteto em uma Igreja do porte de uma N. S. do Carmo, Antiga Sé, São Francisco de Paula ou Candelária, uma sonoridade que antes era bela e aconchegante, se torna, como comumente se diz, “pobre” e “magra”. Percebam que não estou me referindo ao volume. Volume conseguimos com uma boa sonorização e isso diz respeito à parte técnica. Uma boa sonorização dá volume aos instrumentos, mas nunca fará um quarteto soar como uma orquestra completa – fará aquele quarteto soar alto e ser plenamente ouvido por todos em toda a extensão do espaço, mas sempre com a textura sonora de um quarteto.

A segunda coisa que temos sempre que ter em mente na hora de escolher a formação da orquestra é a linha do repertório que será executado. Quando o repertório é clássico (Marchas nupciais, Pompa e circunstância, 9ª sinfonia de Beethoven, etc…), o ideal é que tenhamos os naipes para os quais aquelas músicas foram escritas. Mas isso não é uma regra, já que adaptações podem ser feitas. É possível e frequentemente acontece em pequenas capelas, por exemplo, termos quatro músicos executando a Marcha nupcial de Mendelssohn. Ela foi escrita para todos os naipes, mas as circunstâncias exigem que adaptemos a formação concebida por Mendelssohn para a realidade daquele casamento. E funciona se a adaptação for feita com coerência.

Já na execução de temas populares, a liberdade é maior, pois já partimos de uma transfiguração. Na maioria dos casos, as músicas populares não foram escritas para orquestra, o que nos permite partir do zero e criar uma orquestração que, já se sabe, desde o início, vai retirar a música de sua roupagem original e transfigurá-la dentro da timbragem orquestral. Por isso, acabamos tendo resultados muito interessantes em adaptações de temas populares para qualquer tamanho de orquestra – desde quartetos até orquestras grandes.

Os naipes que mais dão à orquestra grandiosidade e imponência são os metais, o coro e a percussão. As cordas, e as madeiras dão a textura de base e têm uma timbragem geralmente mais suave.

Acompanhe um exemplo de progressão comentado:

• Partindo de uma orquestra com quatro músicos, utilizando apenas madeira e cordas: teclado (ou violão), flauta, violino e violoncelo, temos aqui um som belo e elegante, mas nem imponente, nem grandioso (é uma orquestra muito eficiente para música popular). Dependendo do espaço e da sonoridade que se deseje, é a formação ideal.
• Acrescentemos a este quarteto mais um violino e teremos aquela mesma orquestra com uma textura mais robusta, já que, com estes cinco músicos, abrimos vozes nas três alturas das cordas e acrescentamos uma voz ao arranjo – violino 1 – voz aguda; violino 2 – voz média; violoncelo – voz grave.
• Acrescentemos mais dois violinos e teremos agora uma orquestra com sete músicos: violão (ou teclado), flauta, quatro violinos e violoncelo. O acréscimo destes dois violinos deu à nossa orquestra ainda mais robustez na textura, pois temos agora dois primeiros violinos e dois segundos violinos. Aqui, temos uma orquestra emocionante. Linda e muito versátil – executa temas populares muito bem e também grande parte das músicas clássicas com eventuais adaptações. A sonoridade atingiu o auge da elegância pois o naipe de cordas está farto, temos a flauta nas madeiras, e um instrumento de base (violão ou teclado). Dependendo do espaço e da personalidade da noiva, pode ser que estejamos já na formação ideal, mas, se o que se busca é grandiosidade e imponência, ainda não chegamos lá.
• Acrescentemos dois metais (trompete e trompa) e já teremos agora com estes nove músicos um acréscimo significativo de imponência;
• Somemos a estes nove músicos duas vozes e teremos um som grandioso, afinal, já acrescentamos dois naipes importantíssimos no quesito grandiosidade: metais e vozes.
• Acrescentemos, ainda, textura às vozes, fechando em um coro de 4 vozes e estaremos com estes treze músicos, bem perto de uma explosão de grandiosidade.
• Inserindo o naipe da percussão, o que era no início elegante, mas intimista, virou uma orquestra triunfal com quatorze músicos, com uma textura sonora capaz de encher de som a Candelária ou qualquer outro espaço de grande porte. A partir daí, são raros os acréscimos, mas, acontecem. O próximo passo seria colocar um coro de oito vozes ao invés de quatro (dezoito músicos ao todo). E depois acrescentar mais quatro violinos, totalizando oito (quatro primeiros e quatro segundos violinos), no que chegaríamos a um total de 22 músicos (dependendo do repertório, dobraríamos os violinos antes das vozes). Para os padrões de casamento, esta é uma orquestra imensa e que ocupa um espaço que poucas Igrejas podem comportar.

É importante frisar que as possibilidades de formação da orquestra não se esgotam nas etapas de progressão descritas acima. Não precisamos, por exemplo, ter quatro violinos para inserir os metais. Frequentemente, montamos grupos menores que contemplam todos ou quase todos os naipes. Por isso, é importante termos uma reunião com os noivos para avaliar caso a caso variáveis como disponibilidade orçamentária, gostos pessoais, além das já citadas espaço e repertório, para montarmos uma orquestra sob medida que atenda às necessidades específicas de cada casal.

Duetos e trios:

É comum recebermos e-mails ou ligações com pedidos de apenas um violino, ou, um violino e uma flauta para a cerimônia.

Quando a formação é pequena, é fundamental que tenhamos um instrumento harmônico fazendo a base, o que significa um instrumento capaz de tocar várias notas ao mesmo tempo (acordes) como é o caso do violão, piano, teclado, órgão ou harpa. Quando um destes instrumentos faz a base, aí sim fica interessante acrescentar um instrumento melódico como flauta, violino, trompete, voz… Uma formação de violino e flauta não chega nem perto da textura que poderíamos ter com um teclado e um violino. Esta observação vale também para trios. Se só temos três instrumentos e os três são melódicos, não estaremos potencializando as possibilidades de textura que poderíamos ter com um trio.

Mas, feitas estas observações, formações de duetos e trios podem ser uma excelente opção para quem busca algo mais econômico sem perder a beleza da música ao vivo. Como estas formações até três músicos ainda não são entendidas como uma orquestra, estão localizadas em nosso site em “Bandas e outros grupos”.

Fanfarras:

Fanfarra é um anúncio feito com os metais da orquestra e tem o objetivo de anunciar a chegada de alguém muito importante. Atualmente, é usada em casamentos antes da entrada da noiva, mas é uma prática bem antiga e já foi usada em momentos diversos da história para anunciar a chegada de reis, rainhas, heróis de guerra, oficiais de alta patente, ministros da Igreja, etc…

A fanfarra é geralmente feita com dois ou mais instrumentos sempre do naipe dos metais, que, na prática de casamentos, geralmente são: trompete e trompa ou clarins (também conhecidos como trompetes triunfais).

Os clarins têm a vantagem de serem móveis – podem ser tocados do altar, da porta da Igreja, das sacadinhas laterais perto do altar ou de qualquer outro lugar que se deseje. Outra vantagem é que eles são mais bonitos do que o trompete e a trompa, o que os torna mais vistosos e capazes de uma mise en scene mais interessante com suas longas campanas e bandeirolas penduradas. A desvantagem é que eles só fazem a fanfarra e, quando muito, a marcha nupcial. Depois da entrada da noiva, eles não tocam mais, pois não são instrumentos de orquestra – são instrumentos de fanfarra apenas.

Já a fanfarra com trompete e trompa, sonoramente não deixa a desejar, mas, cenicamente, simplesmente não existe. São instrumentos menores, sem grandes atrativos visuais e ficam junto com os outros instrumentos da orquestra, sem mobilidade. A grande vantagem deles está muitas vezes, na ponderação do custo/benefício, já que não fazem apenas a fanfarra e se inserem no contexto dos arranjos ao longo da cerimônia. Com o trompete e a trompa, não temos a mise en scene, mas temos uma fanfarra sonoramente muito boa e metais ao longo de toda a cerimônia.

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